4 – SINCRETISMO RELIGIOSO E SUAS ORIGENS NO BRASIL (Parte 3)

Publicado: 27/02/2009 em Estudo 1 - UMBANDA - Conceitos Básicos

 
                    Já a partir da década de 1840 intensifica-se o tráfico de escravos da etnia sudanesa através da “Rota da Mina”, que tinha como origem os portos africanos de Lagos, Calabar e, principalmente São Jorge da Mina, superando no período todas as demais em termos de escravos trazidos ao Brasil.
                    A etnia sudanesa era originada principalmente da África Ocidental, na região onde hoje está localizado a Nigéria, Benin, Togo e Gana, e é formada pelos povos Iorubá, Ewe, Fon e Mahin, entre outros. Apesar de inicialmente muitos terem ficado conhecidos apenas como mina, ao longo do século XIX os escravos da etnia sudanesa passaram a ser conhecidos sobre outra nomenclatura, devido a rivalidade e a diferença cultural existente entre os povos Iorubá e Ewe/Fon, que foi transportada da África para o Brasil junto com eles. Dessa forma, o povo iorubá passou a ser conhecido no Brasil como mina-nagô ou nagô, enquanto os povos ewe, fon e mahin ficaram conhecidos como mina-jeje ou jeje, termo este que advém do iorubá adjeje que significa estrangeiro ou forasteiro, e era usada de forma pejorativa pelos iorubás para designar as pessoas que habitavam a leste de seu território.
                    Os nagôs que foram trazidos para o Brasil cultuavam um deus supremo chamado de Olorun ou Olodumaré e a natureza também deificada e personificada nas divindades chamadas Orixás. Apesar de na África existirem cerca de 400 Orixás, a grande maioria deles era cultuada em apenas uma cidade, aldeia ou tribo, sendo poucos os que possuíam um culto em várias localidades.
Assim como ocorreu com os bantos, os escravos sudaneses trouxeram para o Brasil parte de sua cultura e de suas crenças religiosas, que foram pouco a pouco levadas para dentro de algumas manifestações sincréticas aqui existentes, devido aos escravos fugidos que buscavam refúgio nos quilombos e depois aos negros já alforriados, levando ao aparecimento de diversas religiões sincréticas em solo brasileiro no século XIX, muitas delas com base nas Casas de Candomblé.
                    Com a intensificação da adição de elementos sudaneses às Casas de Candomblés no séc. XIX, estas acabaram por darem origem a uma nova religião sincrética brasileira conhecida como CANDOMBLÉ DE NAÇÃO, ao qual agrega dentro de si três modelos de culto relacionados às principais etnias e povos trazidos como escravos para o Brasil: os bantos, os sudaneses nagôs e os sudaneses jeje. Vejamos então como são esses modelos existentes:
 
                   1º- Os Candomblés de Nação Angola, Congo e Muxicongo cultuam um deus supremo chamado Nzambi ou Zambi (também conhecido como Nzambi Mpungu ou Zambiapongo) e a natureza deificada, personificada nas divindades chamadas Inquices. Apesar de na África existirem cerca de 450 Voduns, e a exemplo do que ocorre com os Orixás, a grande maioria deles era cultuada em apenas uma cidade, aldeia ou tribo, sendo também poucos os que possuíam um culto em várias localidades. Vejamos no quadro abaixo os principais Nkises cultuados nesses Candomblés:
 
NKISES
ATRIBUTOS
OBSERVAÇÕES
Nzambi ou Zambi
Deus supremo
Mpungu (todo poderoso) e muambi (criador) são qualidades de Nzambi
Lembá
Nkise da paz, conectado à criação do mundo
 
Kaitumbá, Kokueto e Mikaiá
Nkise dos mares e oceanos
 
Nkosi
Nkise da guerra, senhor dos caminhos,
das estradas e da metalurgia
Mukumbe, Biolê e Buré são qualidades desse Nkise
Teleku-Mpensu
Nkise da pesca
 
Gongobira
Nkise da caça e da pesca
 
Kabila
Nkise do pastoreio e da caça
 
Mutakalambo
Nkise da caça e da comida abundante
 
Katende
Nkise das folhas e dos segredos das ervas medicinais
 
Nvunji
Nkise da justiça, da felicidade da juventude e do nascimento das crianças
 
Nzazi ou Zazi
Nkise dos raios e da entrega de justiça aos humanos
 
Luango
Nkise dos trovões e auxiliar de Nvunji no nascimento de crianças
 
Kaiangu
Nkise guerreira dos ventos, das tempestades e que possui domínio sobre os espíritos dos mortos
Matamba, Bamburussenda, Nunvurucemavula são qualidades desse Nkise
Kitembo ou Tempo
Nkise do tempo e das estações
Patrono da nação Angola, representado por um mastro com uma bandeira branca
Nzumbarandá ou Zumbaradá
Nkise da terra molhada, da água turva dos pântanos, ligada à morte e a mais velha dos Inquices
 
Kisimbi, Samba Nkisi
Nkise de lagos e rios, a grande mãe
 
Ndanda-Lunda
Nkise da água potável, das águas calmas,
da lua e da fertilidade
 
Hongolo ou Angorô
Nkise do arco-íris, auxilia na comunicação entre os humanos e os outros Inquices
Na sua manifestação feminina é chamado de Hongolo Meia ou Angoroméa.
Representado por uma cobra
Kafungê e Kaviungo ou Kavungo
Nkise da varíola, das doenças, da saúde e da morte
 
Nsumbu
Nkise da terra
Nação Angola
Ntoto
Nkise da terra
Nação Congo
Aluvaiá, Vangira, Pambu Njila e Bombo Njila
Nkise mensageiro, guardião das encruzilhadas e da entrada das casas e templos

                     2º- Os Candomblés de Nação Ketu, Efã e Ijexá cultuam um deus supremo chamado de Olorun ou Olodumaré e a natureza deificada, personificada nas divindades chamadas Orixás. Um fato que chama a atenção é que algumas divindades que originalmente eram Voduns na África foram adicionadas ao panteão nagô e passaram a fazer parte do ritual, sendo inclusive consideradas no Brasil como Orixás. Vejamos então no quadro abaixo alguns Orixás cultuados nesses Candomblés:

ORIXÁS
ATRIBUTOS
OBSERVAÇÕES
Olorum ou Olodumaré
Deus supremo
 
Oxaguiã
Orixá da criação da cultura material e da sobrevivência
Considerado a manifestação jovem de Oxalá (ou Obatalá). Originalmente, na África, é filho de Oxalufã e neto de Obatalá.
Oxalufã
Orixá da criação da humanidade, do sopro da vida
Considerado a manifestação idosa de Oxalá (ou Obatalá). Originalmente, na África, é o filho de Obatalá.
Yemanjá
Orixá das grandes águas, do mar e do oceano, da maternidade, da família e da saúde mental
 
Ogum
Orixá da metalurgia, da agricultura, da tecnologia, das estradas e da guerra
 
Xangô
Orixá do trovão e da justiça
 
Oxóssi
Orixá da fauna, da caça e da fartura de alimentos
É também conhecido como Odé.
Ossaim
Orixá da vegetação e da flora, da eficácia dos remédios e da medicina
 
Nanã
Orixá da lama do fundo das águas, dos pântanos, da educação, da velhice e da morte
Originalmente, na África, era um Vodum e não um Orixá.
Ewá
Orixá das fontes, nascentes e riachos e da harmonia doméstica
Originalmente, na África, era um Vodum e não um Orixá.
Logun Edé
Orixá dos rios que correm nas florestas
 
Obá
Orixá dos rios, dos trabalhos domésticos e do poder da mulher
 
Oyá
Orixá do relâmpago, da sensualidade e dona dos espíritos dos mortos
É também chamada de Iansã.
Oxum
Orixá da água doce, do amor, da fertilidade, da gestação, dos metais preciosos e da vaidade
 
Oxumarê
Orixá do arco-íris e da riqueza que provém das colheitas
 
Obaluaiê
Orixá da varíola, pragas, doenças e da cura de doenças físicas
É também chamado de Omulu ou Xapanã.
Originalmente, na África, Obaluaiê e Omulu é, respectivamente, a manifestação jovem e velha do Vodum Xapanã.
Orunmilá-Ifá
Orixá do destino
 
Exu
Orixá mensageiro, da transformação e da potência sexual, guardião das encruzilhadas e da entrada das casas
 

                    3º- Os Candomblés de Nação Jeje-Fon e Jeje-Mahin cultuam uma deusa suprema chamada de Mawu e a natureza deificada, personificada nas divindades chamadas Voduns. Tais divindades são agrupadas em famílias (Savaluno, Dambirá, Davice, Hevioso, etc.), as quais se subdividem em linhagens, interligadas entre si por comportamentos, costumes, gostos e atitudes. Apesar de existir na África cerca de 450 Voduns, a grande maioria não é cultuada aqui no Brasil. Os que aqui são cultuados, somente alguns chegam a ter culto a nível nacional, ficando a maioria restrita a nível regional. Uma característica dessa Nação é que quando estão incorporados, os Voduns mantêm os olhos abertos e conversam com a assistência, dando bênçãos, conselhos e recados. Vejamos então no quadro abaixo, alguns Voduns cultuados no Candomblé de Nação Jeje-Fon e Jeje-Mahin:

 

VODUNS
ATRIBUTOS
OBSERVAÇÕES
Mawu
Deusa suprema
 
Lissá
Vodum masculino co-responsável pela criação junto com Mawu
 
Loko
Primogênito dos Voduns
 
Agassu
Vodum que representa a linhagem real do
Reino do Daomé
 
Agbê
Vodum dono dos mares
 
Gu
Vodum dos metais, da guerra, do fogo e da tecnologia.
 
Agué
Vodum da caça e protetor das florestas
 
Aguê
Vodum que representa a terra firme
 
Ayizan
Vodum dona da crosta terrestre e dos mercados
 
Aziri
Vodum das águas doces
 
Dan
Vodum da riqueza
Representado pela serpente e pelo arco-íris
Eku
Vodum da morte, da feitiçaria e da clarividência
 
Fa
Vodum da adivinhação e do destino
 
Hevioso
Vodum dos raios e relâmpagos
 
Nanã Buluku
A grande mãe universal, senhora da lama
Mãe de Mawu e Lissá
Possun
Vodum do pó e da terra seca
Representado pelo tigre
Sakpatá
Vodum da varíola
 
Legba
Vodum das entradas e das saídas e da sexualidade
O caçula de Mawu e Lissá
                    Dentre todos os Candomblés de Nação, sejam eles do modelo de culto banto, sudanês nagô ou sudanês jeje, o que apresenta maior projeção nacional é o Candomblé de Nação Ketu. Tal projeção tem provocado, atualmente, um fenômeno de assimilação das práticas rituais dessa nação pelas demais, como o idioma e as cantigas utilizadas, a forma como os atabaques são tocados e o culto as divindades. Sobre este aspecto, é interessante notar o sincretismo que tem surgido atualmente dos Nkises e dos Voduns com as lendas, histórias, domínios, cores e símbolos dos Orixás da nação Ketu, como se aqueles fossem estes com nomes diferentes. Nos Candomblés de Nação do modelo nagô existe ainda o culto aos eguns, ou espíritos dos ancestrais, que ocorre no quarto de balê, um recinto separado do local onde se cultua os Orixás, e que possui um sacerdote próprio, chamado de Baba Ojé, preparado especialmente para este tipo de culto.
                    Atualmente um fenômeno interessante que parece ter surgido no Candomblé de Nação Ketu, e dele se espalhado para as demais nações, é o movimento de recuperação das raízes africanas, o qual vem rejeitando o sincretismo com o catolicismo e com as práticas indígenas buscando o aprendizado da língua nativa e a redescoberta dos ritos, histórias e lendas das divindades que se perderam ao longo do tempo, contando, inclusive, com viagem de sacerdotes do Brasil até a Nigéria e o Benin a fim de realizarem pesquisas “in loco” 7 em aldeias e templos na África para aprenderem os rituais que foram perdidos nas brumas do tempo da escravidão.

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comentários
  1. larissa da silva godinho disse:

    odeio essas historias

  2. silas soares e castro disse:

    eu tambem

  3. Julio disse:

    Tem a bibliografia não para mim o auto achei legal

  4. gildherlenny santtos disse:

    Parabéns por publicar essas idéias maravilhosas na Internet

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