4 – SINCRETISMO RELIGIOSO E SUAS ORIGENS NO BRASIL (Parte Final)

Publicado: 27/02/2009 em Estudo 1 - UMBANDA - Conceitos Básicos

 
                    No final do século XIX e início do século XX, tradições religiosas da etnia sudanesa foram sendo aos poucos adicionadas ao sincretismo banto-católico-ameríndio existentes também no Rio de Janeiro, levando ao surgimento dos sincretismos conhecidos como ZUNGU e MACUMBA.
                    Parece que os termos Zungu e Macumba foram usados indistintamente no Rio de Janeiro para designar quaisquer manifestações sincréticas de práticas africanas relacionadas a danças e cantos coletivos, acompanhadas por instrumentos de percussão, nas quais ocorria a invocação e incorporação de espíritos e a adivinhação e curas por meio de rituais de magia, englobando uma grande variedade de cerimônias que associavam elementos africanos (Nkises, Orixás, atabaques, transe mediúnico, trajes rituais, banho de ervas, sacrifícios de animais), católicos (cruzes, crucifixos, anjos e santos) e, mais raramente, indígenas (banho de ervas, fumo). A diferença básica entre eles parece ser apenas o período em que estes termos foram utilizados: zungu, em meados do século XIX e macumba, no final do século XIX e início do século XX substituindo o termo zungu.
                    Na Macumba o chefe de culto e o seu ajudante eram chamados, respectivamente, de embanda e cambone, embora este último também pudesse ser chamado de cambono. Parece que os iniciados na Macumba eram chamados de filhos(as)-de-santo ou médiuns.
                    O que se sabe sobre os rituais da Macumba é que as entidades como os orixás, Nkises, caboclos e os santos católicos eram agrupados por falanges ou linhas como a linha da Costa, de Umbanda, de Quimbanda, de Mina, de Cabinda, do Congo, do Mar, de Caboclo, linha Cruzada, etc; e que quanto maior o número de linhas cultuadas pelo embanda, mais poderoso ele era considerado, uma vez que isso era tido como sinal de maior conhecimento sobre o mundo dos espíritos.
                    E assim como em outros sincretismos brasileiros, o Zungu e a Macumba eram organizados basicamente em torno de seu chefe de culto, fazendo de cada unidade de culto algo único, diferindo dos demais por um ou mais elementos ritualísticos. Devido a grande penetração que a Macumba tinha na população mais pobre e marginalizada do Rio de Janeiro de fins do século XIX, principalmente os afrodescendentes recém libertos pela Lei Áurea, seu nome acabou se popularizando por todo o país e até hoje ainda é usado para designar pejorativamente qualquer religião afro-brasileira ou ritual que envolva magia.
                    É provável que a Macumba tenha desaparecido do cenário religioso carioca devido ao aparecimento mais tarde da Umbanda e a sua rápida expansão no estado do Rio de Janeiro, principalmente na então capital federal, que teria atraído para si um expressivo número de adeptos da Macumba e a influenciado de tal forma que levaram muitas casas de Macumba a se transformarem em tendas de Umbanda ou em casas de Omolokô para fugirem da repressão que na se tinha a esses cultos.
                   Mudanças na estrutura de algumas casas de Macumba do Rio de Janeiro, então capital do país, neste mesmo período, acabam levando ao surgimento de duas religiões sincréticas o
                    OMOLOKÔ e “ALMAS E ANGOLA”, que guarda muitas semelhanças com algumas vertentes da Umbanda, inclusive existindo muitas casas que se reconhecem como sendo de “Umbanda Omolokô” ou Umbanda em “Almas e Angola”.
                   No Omolokô que é praticado hoje em dia o ritual recebeu forte influência das obras daquele que é considerado o seu organizador: Tatá Ti Nkise Tancredo da Silva Pinto. Segundo ele, o Omolokô tem como origem as práticas religiosas dos bantos das tribos Quiôcos, das províncias de Lunda Norte e Lunda Sul, situadas na região oriental de Angola e que também pode ser encontrados em parte da República Democrática do Congo e da Zâmbia.
                   O Omolokô cultua um deus supremo chamado Nzambi ou Zambi (também conhecido como Nzambi Mpungu ou Zambiapongo), a natureza deificada personificada nos Orixás e nas entidades conhecidas como Orixás Menores, Caboclos, Preto-Velhos, Crianças, Exus e Pomba-giras.
                  Originalmente o termo utilizado no Omolocô para designar a natureza deificada era Bacuro. Os Bacuros possuíam um correspondente nas divindades dos Quiôcos, que parecem terem ficado conhecidas aqui no Brasil como Lunda. Atualmente o termo Bacuro e o nome das divindades Quiôcos foram substituídos, respectivamente, pelo termo Orixá e pelo nome das divindades do panteão nagô que possuem os mesmos atributos ou arquétipos. É importante ressaltar que, no Omolocô, o termo Orixá é utilizado também para designar alguns Nkises que foram incorporados ao seu panteão, provavelmente por influência dos Candomblés de Nação do modelo de culto banto.
                    Vejamos então no quadro abaixo como é a correspondência entre as divindades Lunda, Bacuros e os Orixás no Omolocô:
 
Lunda
(divindades dos Quiôcos)
Bacuro
(nome original no Omolocô)
Orixá
(nome atual no Omolocô)
Dundu Kianguim
Aluvaiá
Exu
 
Angorô
Oxumarê
Dandu Kindelé
Burunguça
Omulu
 
Caculu ou Cabasa
Ibeiji
 
Cuiganga
Ewá
Anili Kindelé
Dandalunda
Yemanjá
Kindele
Ferimã
Oxalá
Uisu Kukusuka
Inhapopô
Iansã
Kianguim Kindelé
Jambangurim
Xangô
Mulombe
Kamba Lassinda
Oxum
Kianguim Uisu
Kangira
Ogum
 
Karamocê
Obá
 
Katendê
Ossaim
Uisi
Madé
Oxóssi
Diambanganga
Pagauô
Irôko
Numba Kindelé
Querequerê
Nanã
 
Teleku-Mpensu
Logun Edé
 
Kitembu
Tempo
                    Uma possível influência da Umbanda sobre o Omolocô é a existência de uma separação dos Orixás em duas classes: Orixás Maiores e Orixás Menores. Os Orixás Maiores, ou apenas Orixás, são entendidos como sendo uma energia emanada de Zambi e portanto nunca passaram pelo processo de encarnação. São os responsáveis pelo movimento da natureza e pela formação e manutenção da vida. São considerados onipresentes e únicos. Os Orixás Menores, por sua vez, são entendidos como espíritos que passaram pelo processo de reencarnação e que alcançaram uma grande elevação espiritual e que por isso foram dotados de poderes sobrenaturais pelos Orixás Maiores, sendo considerados os intermediários entre estes últimos e os demais espíritos. Por este motivo, eles utilizam o nome do Orixá Maior ao qual estão subordinados seguidos de um sobrenome, chamado de Dijina8, por exemplo: Ogum Beira Mar, Seria um Orixá Menor subordinado do Orixá maior Ogum.
                    No Omolocô não existe incorporação de Orixás Maiores, apenas dos Orixás Menores e dos espíritos chamados de eguns. Os eguns aqui espíritos que já possuem certa compreensão espiritual, porém ainda não alcançaram a elevação dos Orixás Menores. São considerados eguns: os Caboclos, os Preto-Velhos, as Crianças, os Exus e as Pombas-gira. Existe ainda uma terceira classe de espíritos, chamados de quiumbas ou kiumbas, que são entendidos como espíritos atrasados e que ainda não alcançaram uma compreensão das coisas espirituais.
                    Já a religião sincrética conhecida como “ALMAS E ANGOLA”, que apesar de ser originária da capital fluminense, atualmente não é mais praticado nesse estado, hoje em dia podemos encontrá-la quase que exclusivamente na região da grande Florianópolis, em Santa Catarina.
                    A religião “Almas e Angola” guarda muita semelhança com o Omolocô e com algumas vertentes da Umbanda, ela cultua um deus supremo chamado Zambi, mas em algumas casas também é chamado de Olorum, a natureza deificada personificada nos Orixás e as entidades conhecidas como Orixás Menores, Caboclos, Preto-Velhos, Crianças, Exus e Pombas-gira. O Orixá Obaluaiê é considerado a força maior do ritual de “Almas e Angola”, tendo destaque nos altares dessa religião.
                    Podemos aqui conhecer, de uma forma bem sintetizada, um pouco sobre a história do sincretismo religioso no Brasil Podemos também conhecer suas origens, observar a evolução e a influencia de uma religião sobre outra.
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1- Antropofagia: Aqueles que comem carne humana
2- Tupã Cinunga: “O trovão”.
3- Tupã Beraba: “O relâmpago”.
4- Tupã: “Golpe estrondeante” ou “Baque estrondeante”.
5- Iurupari: O mártir ou o sacrificado.
6- Quilombo: Um quilombo era um local de refúgio dos escravos no Brasil, em sua maioria afrodescendentes (negros e mestiços), havendo minorias indígenas e brancas. O mais famoso na História do Brasil foi o de Palmares.
7- In Loco: Termo do Latim que significa no local.
8- Dijina: Palavra de origem kimbundo “Rijina”, dialeto bantu que significa "nome" ou “apelido”.
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comentários
  1. MARCIA ELIZIA disse:

    TENHO UMA DÚVIDA: IEMANJÁ É NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO? APRESENTEI UM TRABALHO E UMA COLEGA ME CORRIGIU E ME DIZ QUE NÃO, MAS NAS PESQUISAS QUE FIZ, DIZ QUE SIM.

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