4 – SINCRETISMO RELIGIOSO E SUAS ORIGENS NO BRASIL (Parte 1)

Publicado: 20/02/2009 em Estudo 1 - UMBANDA - Conceitos Básicos

Texto retirado do Livro “Sincretismos Religiosos Brasileiros” de Renato Henrique Guimarães Dias.

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Sincretismo é a fusão de doutrinas de diversas origens, seja na esfera das crenças religiosas quanto nas filosóficas. Na história das religiões, o sincretismo é uma fusão de concepções religiosas diferentes ou a influência exercida por uma religião nas práticas de uma outra.

No Brasil o sincretismo religioso é uma prática bastante comum.Mas tudo começou a partir do ano de 1500, quando o território brasileiro tornou-se palco para o encontro de três grandes tradições culturais: a ameríndia, nativa da terra; a européia, trazida pelos colonizadores portugueses e mais tarde a africana, trazida pelos escravos bantos e sudaneses. Um encontro que foi desde o início marcado pela imposição da cultura européia às populações indígenas e africanas, refletida, principalmente, na imposição da cristã da Igreja Católica Apostólica Romana a esses dois grupos.

Para se viver no Brasil, nesta época, o índio e o negro mesmo como escravo, e principalmente depois, sendo livre, era indispensável antes de mais nada, ser católico. Por isso eles que cultuavam seus deuses e tinham suas bases religiosas bem estruturadas, no Brasil se diziam católicos e se comportavam como tais, além de praticarem os rituais de seus ancestrais, freqüentavam os ritos católicos.

Há antropólogos que insistem que a assimilação Santo/Orixá era aparente e, inicialmente, serviu para encobrir a verdadeira devoção aos seus deuses, pelo fato dos cânticos nesses rituais terem sido efetuados em língua nativa e que ninguém os entendia. Um fato histórico que pode opor-se a este pensamento é a criação das confrarias de negros, como exemplo a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na Bahia, que era totalmente composta por negros que haviam realmente se convertido ao Cristianismo e não eram apenas uma fachada.

Essa tentativa forçada de aculturação sempre encontrou resistência, o que acabou resultando em várias tentativas feitas por indígenas e africanos de conciliar os princípios de suas culturas e, por conseqüência, de suas tradições religiosas, a doutrina cultural e religiosa que lhes eram impostas.

Na tentativa de preservação dos princípios e práticas religiosas indígenas e africanas, por meio da conciliação com os princípios e práticas católicas, acabaram levando ao nascimento de várias manifestações sincréticas em solo brasileiro, únicas no mundo, algumas delas existentes até os dias de hoje. Mas infelizmente existem poucos estudos sobre a grande maioria delas, o que veremos aqui, é uma pequena idéia de como eram as bases dessas duas culturas religiosas, o sincretismo entre elas e os processos que deram origem a essas outras.

O início de tudo se deu com a religiosidade Tupi, embora várias nações indígenas habitassem o território brasileiro durante os primeiros anos da colonização européia, nenhum grupo foi tão influenciado pelos portugueses quanto os tupis, que no século XVI dominava quase todo o litoral brasileiro e era formado pelas tribos Potiguar, Tabajara, Caeté, Tupinambá, Tupiniquim, Temiminó e Tamoio.

É muito difícil tentar reconstruir com detalhes as tradições religiosas e crenças tupis na época do descobrimento do Brasil, pois o que sabemos sobre elas deve-se aos relatos feitos por europeus que por diversos motivos se estabeleceram aqui no início do período colonial, os quais não se preocuparam em estudar e deixar registros detalhados das mesmas. O que podemos apreender dos relatos dos primeiros colonizadores sobre a religiosidade tupi foi que seu ponto central era o culto à natureza deificada ou divinizada. O pajé e o feiticeiro ou xamã eram os que tinham acesso ao mundo dos mortos e dos espíritos da floresta, e geralmente a eles competiam realizar rituais de cura de doenças, expulsarem maus espíritos que se alojavam nos corpos das pessoas e desfazer feitiços mandados pelos inimigos. A ingestão de alimentos e bebidas fermentadas em muitos grupos tinha uma função ritualística. Mesmo a antropofagia1 que caracterizou os tupinambás se revestia de um tom sagrado, pois Acreditavam que, comendo a carne dos seus inimigos, apoderavam-se de sua valentia e coragem.

Os tupis possuíam uma divindade suprema do bem que denominavam Nhanderuvuçu, deus da criação, da luz e a quem competia o ato divino do sopro da vida. Nhanderuvuçu teria sua morada no Sol e manifestava-se nas tempestades através de sua voz, na forma de Tupã Cinunga2 e de seu reflexo, na forma de Tupã Beraba3. Segundo Câmara Cascudo e Osvaldo Orico, grandes historiadores e estudiosos da cultura brasileira, somente com o trabalho da catequese, e com a confusão feita pelos jesuítas, que Nhanderuvuçu passou a ser chamado de Tupã4, em virtude das formas como essa divindade se manifestava durante as tempestades.

Os tupis acreditavam também em outras divindades, como Guaraci (o deus do sol), Jaci (deusa da lua), Caapora (deus da floresta), Uirapuru (deus dos pássaros), Iara (deusa das águas) e em uma entidade civilizadora denominada Iurupari5, filho da virgem Chiuci, que teria sido mandando a terra por Guaraci para reformar os costumes dos seres humanos. Segundo Diamantino Trindade essa crença que lembrava muito a história de Jesus Cristo, teria deixado os jesuítas apavorados.

Como forma de tornar a religião católica mais fácil de ser assimilada pelos indígenas, os jesuítas associou ao seu deus e santos os nomes de algumas divindades tupis. Foi assim, por exemplo, que Nhanderuvuçu passou a ser chamado de Tupã e foi transformado em Deus/Pai.

Entretanto, na maioria dos casos, os jesuítas associaram os deuses indígenas aos demônios da doutrina católica. Foi o caso, por exemplo, de Iurupari, que teve sua imagem totalmente invertida e acabou sendo associado ao próprio diabo, embora sua história lembrasse muito a de Jesus.

Isso tudo acabou gerando a primeira religião sincrética surgida no Brasil da junção da Religiosidade Tupi e do Catolicismo, que ficou conhecida como SANTIDADE, nome criado por Manoel da Nóbrega, em 1549, quando viu um pajé em transe pregando a outros indígenas.

Os adeptos da Santidade cultuavam um ídolo de pedra, chamado de Tupanaçu, que acreditavam possuir poderes sagrados, rezavam usando cruzes, terços e rosários, construíam “igrejas” e colocavam tábuas com desenhos de símbolos sagradas nelas, cultuavam alguns santos católicos e entoavam cantos em honra aos mesmos, faziam um ritual semelhante ao batismo e realizavam procissões.

Neste mesmo período, com o início dos trabalhos de catequese na região amazônica, a partir da cidade de São Luís do Maranhão, iniciou-se um processo de sincretismo entre a religiosidade ameríndia local e o catolicismo, semelhante ao que ocorrera no litoral tupi, levando ao surgimento da religião sincrética conhecida pelo nome de PAJELANÇA.

Embora o termo pajelança acabe sendo usado também para designar todo e qualquer ritual ameríndio, ele aqui designa a religião sincrética de caráter mágico-curativa que ainda existe nos dias de hoje na região amazônica, sobretudo nos estados do Pará e do Amazonas. A exemplo da Santidade, nos rituais da Pajelança são encontrados o uso de trajes nativos (pena, arco, flecha, colares, máscaras), cantos e danças, a fumaça derivada da queima do tabaco e o consumo de bebidas fermentadas, que permitem ao pajé entrar em transe místico e ter visões e incorporar espíritos. Em algumas Pajelanças pode-se encontrar também a devoção aos santos católicos.

Uma característica marcante da Pajelança é que além de incorporarem os espíritos dos antepassados das tribos e de antigos chefes do culto, os pajés também incorporam espíritos animais, sejam eles reais como: jacarés, botos, cavalos-marinhos, cobras ou imaginários como: mãe d’água, cobra-grande, e por meio dos quais descobriam a causa das doenças de seus consulentes e os remédios para eles.

(CONTINUA)

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comentários
  1. M disse:

    Obrigado pelo texto. Muito útil 🙂

  2. Rafaella Pajaú disse:

    Obrigado ajudo muito!

  3. Ana Luísa¯ disse:

    Goosteii me ajudou muito!

  4. ana disse:

    muito grande mais eu tomei uma nota boa 5 pontos

  5. Paulo Barroso disse:

    por que encontramos variedade de “santos” no sincretismo brasileiro; exemplo: NS da Conceição – Oxum, mas já vi ser também NS Assunção.

  6. sthefany santos disse:

    me ajudou muito esse texto…

  7. lucas disse:

    isso e bom e tomei dez e eu nao sou fan dessar religiao

  8. Damiani disse:

    Muito interessante! Essas passagens deveriam ser mais difundidas com estudos mais aprofundados em nossas escolas…

  9. jefferson disse:

    dahora hein!

  10. Agnez borges disse:

    Muito interesante saber dessas coisas e suas origens gosto muito de estudar aprender coisas que não sabia como se originou

  11. Claudia Medeiros disse:

    Muito interessante, parabéns pelo texto.

  12. Adriana Grangeiro disse:

    Muito bom, seu texto, muito obrigada!!!

  13. Carlos Alberto Santos da Silva disse:

    Gostei das explicações.

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