4 – SINCRETISMO RELIGIOSO E SUAS ORIGENS NO BRASIL (Parte 2)

Publicado: 20/02/2009 em Estudo 1 - UMBANDA - Conceitos Básicos

 

A partir do século XV inicia-se uma das maiores migrações forçadas da história da humanidade, na qual milhões de africanos que haviam sido capturados em seus territórios ancestrais, na maioria das vezes por outros africanos de tribos rivais, foram levados para o litoral e vendidos como escravos para os europeus e brasileiros em portos específicos na África e trazidos nessas condições para o Brasil.

Durante o final do século XVI e final do século XVIII, a principal etnia trazida para o Brasil foi a dos Bantos, povo que durante o período de colonial brasileiro ocupava a maior parte do continente africano situado ao sul do equador, na região onde hoje está  localizado  o  Congo,  a República Democrática do Congo, Angola e Moçambique, entre outros. Parece que a grande maioria dos Bantos que foram trazidos para o Brasil cultuava um deus supremo chamado de Nzambi, Nzambi Mpungu ou Anganga Nzambi, ou simplesmente Zambi como é conhecido hoje, e a natureza deificada que era personificada nas divindades chamadas Nkises.

Assim que chegavam ao Brasil, os africanos escravizados eram logo submetidos à aculturação portuguesa, traduzida principalmente na catequese católica: eram batizados e recebiam um nome “cristão”, pelo qual seriam conhecidos a partir daquele momento.

Assim como os tupis, os bantos também tentando preservar suas tradições religiosas no Brasil, adaptaram suas crenças às condições de escravidão que estavam submetidos. A principal forma encontrada por eles, como foi feito também pelos tupis décadas antes, foi associar os santos católicos aos seus deuses, no caso aqui os Nkises, de acordo com as características ou arquétipos que ambos possuíam em comum. Foi a partir deste sincretismo, ocorrido no interior das senzalas a partir do final do século XVI, que nasceu a primeira manifestação sincrética da religiosidade banto/católica no Brasil: o CALUNDU. Seu nome foi originado da palavra banto Kilundu, que até o século XVIII foi utilizada para designar genericamente a manifestação de práticas africanas relacionadas a danças e cantos coletivos, acompanhadas por instrumentos de percussão, nas quais ocorria a invocação e incorporação de espíritos e a adivinhação e curas por meio de rituais de magia.

O que nos chama a atenção são os relatos da aparente tolerância manifestada pelos proprietários de escravos ao Calundu. Muito provavelmente essa atitude devia-se a crença de que com essa prática os africanos manteriam vivas, pelo menos dentro da senzala, as rivalidades tribais existentes na África, o que dificultaria a formação de rebeliões ou fugas. É importante ressaltar que, apesar dessa tolerância, os aspectos ritualísticos do Calundu ligados a magia e a incorporação de espíritos eram freqüentemente combatidos por serem considerados coisas malignas, surgindo daí a expressão magia negra para designar a magia voltada para o mal, que na mentalidade da época era “coisa de negro”.

Ao longo de todo o período de escravidão negra no Brasil, inúmeras foram as tentativas bem sucedidas de fugas das senzalas empreendidas pelos africanos. Os relatos dos inúmeros quilombos6 existentes no país ao longo dos períodos coloniais e imperiais são a prova mais marcante disso. Entretanto, no início, antes do surgimento dos primeiros quilombos, os africanos que conseguiam sucesso em suas fugas só conseguiam abrigo nas aldeias indígenas do interior. Mais do que abrigar os primeiros africanos bantos fugidos das senzalas, as aldeias indígenas abrigariam toda a cultura e religiosidade deles, que acabaria por influenciar sua própria cultura e religiosidade. Muito provavelmente no nordeste do século XVII, onde uma pequena parcela de religiosidade dos bantos acabou se misturando ao sincretismo ameríndio-católico do interior, levando ao surgimento da primeira religião sincrética brasileira, o CATIMBÓ, surgida da fusão religiosa dos três povos formadores do país, também conhecido como CULTO À JUREMA, resistente até os dias de hoje em todo o nordeste brasileiro.

Apesar de existirem a incorporação de Caboclos no Catimbó, seu culto baseia-se principais nas entidades conhecidas como Mestres da Jurema ou apenas Mestres, e é através deles que se realiza o principal trabalho das entidades do Catimbó, a cura de doenças e a receita de remédios para os males físicos, podendo também ocorrer trabalhos para solucionar alguns problemas materiais e amorosos. Cabe também aos Mestres e aos Caboclos realizar a limpeza espiritual dos adeptos e a expulsar maus espíritos das pessoas.

Os Mestres são entidades que se especializam em determinada erva ou raiz e que guardam muito do comportamento e personalidade de sua última encarnação, o que os torna muito naturais e espontâneos, além de possuírem uma forte ligação com a sua caracterização física. Uma característica que chama a atenção é que não existem Mestres do bem ou do mal: eles tanto podem trabalhar para um quanto para o outro, dependendo da orientação do local de culto e do médium.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII cresce consideravelmente o número de cidades em todo o país, devido a esse fato, surge uma situação completamente nova em todo o território colonial: o aumento do número de negros e mulatos alforriados, livres, e de escravos circulando com relativa liberdade nessas áreas urbanas. A partir das residências desses negros e mulatos livres, localizadas em sua grande maioria em casebres e cortiços, que as manifestações religiosas de origem africana encontraram condições mínimas para se desenvolverem, onde poderiam realizar suas festas com certa freqüência, construírem e preservarem seus altares com os recipientes consagrados aos seus deuses.

São nessas residências que surgem, em fins do século XVIII e início do século XIX,        uma nova manifestação sincrética brasileira, que ficou conhecida na Bahia como CASAS DE CANDOMBLÉ. O Candomblé surge então com base no fortalecimento das tradições religiosas dos bantos preservadas no sincretismo com o Calundu e a assimilação de algumas poucas práticas indígenas que sobreviviam nos quilombos e nas aldeias indígenas dos arredores deles.

Pelo fato de servirem como moradia e também como locais de culto, as Casas de Candomblé se estruturavam com base em famílias-de-santo, que estabelecia entre seus adeptos uma espécie de parentesco religioso, característica que foi um importante legado a outras religiões sincréticas que se originaram a partir dele.

 

(CONTINUA)

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comentários
  1. JUSSARA LARANGEIRA disse:

    Jorge, boa noite!!!

    Adorei todo seu material de estudo e principalmente, os livros disponíveis em sua biblioteca.
    Como estou concluindo uma monografia sobre Intolerância Religiosa achei diversas informações nos seus textos que com certeza vão enriquecer meu TCC. Só estou tendo muita dificuldade em como fazer a devida referência bibliográfica, já que suas apostilas e textos não tem uma data muito precisa!!! Se não for pedir muito, vc mer daria essa ajuda?? Me mandaria esses dados pra que eu possa fazer da forma correta?? vc não faz idéia do quanto me ajudou nesse momento de “desespero” que é o final da graduação…rsrs
    Desde já te agradeço muitíssimo sua atenção!!!

    Abs,
    Jussara

  2. Gostei imensamente do texto. Sou baiana , vivo em salvador, fiz parte do departamento de antropologia da\ UFBa e hoje presido o IGHB . Ensinei Língua Tupi durante 31 anos.

  3. heliene disse:

    nossa achei maravilhoso, pois ira enriquecer meu tcc.
    estou trabalhando o sincretismo na seita que utiliza ayhuasca.aqui na regiao norte..abraço

    heliene lopes

  4. Muito bom.. gostei …

  5. Anne disse:

    gostei mais podia ter colocado figuras pra retrata mais o texto :) Uma dica pra vc *-*

  6. Severina do Ramos da Costa Santos disse:

    gostei bastante pois nos fala de toda uma condição de vida religiosa dos negros escravizados aqui no Brasil, esse tema é bem vindo para nós professores podermos nos enriquecer e até mesmo levar para nossos alunos em sala de aula para um estudo mais apurado sobre o Sincretismo religioso no Brasil.

  7. gostei muito do seu material ,que fala com palavras exatas a minha professora acho ótimo

  8. luan disse:

    muito bom, gostei

  9. Maria gutierrez disse:

    Gostei muito do estudo que nos proporciona,com ele cresce o meu entendimento da Umbanda , muito obrigada

  10. nilcineia disse:

    oi estou fazendo uma monografia sobre o sincrestismo religioso no Brasil. pode me indicar alguns livros?

    • Olá… na nossa biblioteca virtual tem esse livro na íntegra… é só ir lá e baixar!!!! Inclusive tem o contato com o autir… material muito bom… eu recomendo!!!!

  11. Vanilce Barros disse:

    Gostei muito do estudo que nos proporciona,cresce o meu entendimento da Umbanda.

  12. LUPERCIO ROMULO SOARES DA SILVA disse:

    Muito bom, encontrei seu texto num momento que inicio um estudo sobre a influencia do grupo sudanês sobre as religiões tradicionais dos Bantos, ou seja dos Nagôs sobre os Bantus, entre outros o visitarei sempre para colher informações. Obriga
    do!

  13. ANA MARIA SOUZA SEIXAS disse:

    Gostei, o texto é muito esclarecedor! Nada disso eu sabia, desconhecia totalmente. Obrigada.

  14. gostei muito do texto sou morena e adoro sabe, tudo sobre a influencia dos negro… e a
    explicação de nosso cultura influenciada—–

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